26 ago, 2020

[RESENHA] O Jogo Perfeito #1

Oi gente, tudo bem? Então, hoje eu trouxe a resenha de O Jogo Perfeito da autora J. Sterling e publicado no Brasil pela Faro Editorial. Já aviso que essa resenha vai ficar longa, então tenham paciência. Espero que entendam meu ponto de vista, e, principalmente, tenham em mente que eu não estou atacando nem a autora e nem a editora. Eu só achei que deveria falar sobre todas as minhas impressões sobre a leitura. Sem mais delongas, vamos lá.

O livro conta a história de dois jovens universitários, Cassie Andrews & Jack Carter. Quando Cassie percebe o olhar sedutor e insistente de Jack, o astro do beisebol em ascensão, ela sente o perigo e decide manter distância dele e de sua atitude arrogante, principalmente após os avisos de sua melhor amiga Melissa. Mas Jack tem outras coisas em mente… Acostumado a ser disputado pelas mulheres, faz tudo para conseguir ao menos um encontro com Cass. Porém, todas as suas investidas são tratadas com frieza.

Ambos passaram por muitos desgostos, viviam prevenidos, cheios de desconfianças, antes de encontrar um ao outro, (e a si mesmos) nesta jornada afetiva que envolve amor e perdão. E criam uma conexão tão intensa que não vai apenas partir o seu coração, mas restaurá-lo, devolvendo inteiro novamente.

Antes de começar a falar sobre minhas impressões, preciso contar sobre minha jornada com o livro. Eu conheci a autora nas minhas andanças pelo Goodreads há anos, numa época em que nem se pensava no lançamento do livro por aqui. Eu queria muito ler o livro porque fiquei curioso com a história, mas só agora realmente consegui pegar ele. De ante mão digo que fiquei bem decepcionado com algumas coisas.

Mas vamos falar sobre os pontos positivos. A escrita da autora é bem fluída e ela soube muito bem encontrar a voz dos personagens. Ao longo do livro tudo é contado do ponto de vista da Cassie e do Jack, e em momento nenhum ficamos perdidos sem saber quem está narrando, justamente porque Sterling soube bem trabalhá-los. Com exceção de um personagem (falarei mais adiante), todos tem sua essência bem definida e é quase impossível não se apegar a algum deles (oi Dean).

Com essa narrativa fluída, a gente consegue ler o livro bem rapidinho, e as 222 páginas passam e a gente nem vê, principalmente porque há sempre alguma coisa acontecendo na vida desses personagens, seja algo alegre ou mais dramático, sendo esse segundo bem característico de romances do gênero “Novo Adulto”. A trabalho da editora também está bem feito. O projeto gráfico é simples, mas contribui para a leitura rápida e os revisores fizeram um ótimo trabalho.

Passando agora aos pontos que me incomodaram bastante, primeiro eu devo ressaltar que a gente tem muito machismo disfarçado em diversas atitudes de Jack. E tudo bem um personagem ser assim, não devemos esperar apenas por personalidades descontruídas, mas a questão é: o livro acaba Jack não melhora. Dean, seu irmão mais novo, vira e mexe faz questão de abrir seu olho em diversos momentos, mas de nada adianta, ele persiste em atitudes que às vezes é bem difícil de deixar passar. Pra mim é meio complicado alguém passar por uma jornada de transformação e realmente não melhorar.

Outra personagem que me incomodou foi Melissa. Ela é a primeira a dizer pra Cassie ficar longe de Jack porque ele é galinha e não leva nenhuma menina a sério. Ela pinta o terror. Mas poucas páginas depois ela parece querer empurrar a amiga pra cima dele apesar de tudo. Todas as atitudes dela com relação ao casal pecam na essência cuidadosa que ela tem com a amiga durante todo o livro. Ficou meio forçado acreditar que Melissa se importa tanto, mas não perde a chance de ver Cassie se dar mal nas mãos de Jack.

Outro ponto perpetuado em algumas páginas é a necessidade da mulher ser centro de reabilitação pra homem. Desde o início dos tempos observamos em filmes e outras obras que a mulher tem que ser compreensiva e sempre querer o bem estar do sexo oposto em primeiro lugar, mesmo depois dele a magoar profundamente. Isso acontece aqui. Como se Cassie não tivesse motivos pra não confiar no novo namorado, após um acontecimento ele vem com um discurso totalmente perturbador tentando virar o jogo, fazendo ela passar por louca, acarretando no fato dela ter que pedir desculpas por algo que ele causou. A visão que temos ao ler? Que isso é normal e natural. E mais uma vez, existem pessoas assim na vida real eu sei, isso tem que ser abordado na literatura, eu também sei, mas em momento algum houve uma tentativa de censurar essas atitudes ou mostrar que isso não é legal.

A próxima coisa que vou abordar pode ser um spoiler (não acho que seja), mas por via das dúvidas pule o próximo parágrafo.

Uma coisa que muitas vezes passa despercebido é que os acontecimentos na história têm que levar a algum lugar realmente importante para o enredo. Me incomoda bastante quando um autor usa algo pesado por usar. Por que estou falando isso? Tem uma cena em que Cassie é assaltada e o ladrão leva sua câmera e, além disso, AGRIDE a garota. Ele bate nela e ela fica com o rosto machucado. E sabem para que essa cena está no livro? Apenas para logo depois Jack mostrar como é alfa e um namorado espetacular por dar outra câmera pra namorada (já que ela é pobre e não tem dinheiro para comprar uma). É isso. A agressão não tem papel nenhuma na narrativa nem na história de Cassie.

Gente, sério, em pleno século XXI eu fico triste e me incomoda MUITO o uso de tal artifício apenas para o homem da história mostrar o quanto ele é importante na vida da mulher. Mulheres morreram ao longo da história apenas por serem mulheres (e tratadas como bruxas), elas continuam morrendo hoje pelo mesmo motivo e principalmente, porque muitos homens acham que podem fazer isso. Então não, eu não consigo achar legal nem aplaudir qualquer apologia a agressão gratuita (e não gratuita) contra uma mulher. Se mesmo após uma reflexão a cena fosse importante, que contivesse apenas o roubo, e nada mais.

É por tudo isso e até outras coisas que me incomodaram menos, que eu não consigo dar mais do que duas estrelas para o livro. De início a história é interessante, me pegou pela carga dramática e por abordar conflitos de confiança, mas não trouxe nada disso com a profundidade e o cuidado merecido. Se você não vê problema em nenhuma das coisas que abordei, provavelmente vai amar a leitura e rir bastante, porque há momentos de descontração.

Para encerrar, não estou dizendo que vocês não devam ler o livro. Sou muito a favor de cada pessoa ter a sua opinião sobre tudo, então se você ficou interessado leia e tire suas próprias conclusões. Por hoje é isso.

Título: O Jogo Perfeito Série: O Jogo Perfeito #1 Páginas: 222 | Autor(a): J. Sterling 
Tradutor(a):  Carlos Szlak  Editora: Faro Editorial | Ano: 2014

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7 Comentários

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    Olá,
    Bem eu já vi muita gente falando bem do livro e como ele é uma história e coisas e tal, mas a maioria dos livros “New Adult” tem dessa de personagens machistas e que com o tempo se transformam, ou não na história.
    Adorei sua opinião sincera.

    lereliterario.blogspot.com

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    Carolina Trigo
    setembro 10, 2020

    Oi, Koldney!
    Eu li esse livro a muito tempo atrás e na época, eu gostei. Hoje, com a cabeça mais evoluída e com mais vivência, tenho quase certeza que todos esses pontos no qual você citou eu também ficaria incomodada, a ponto de não gostar da leitura. Tanto tenho esse certeza, que hoje nem tenho mais o livro em casa. Acho que desde aquela época, algum alarme já estava tocando para tomar cuidado, rsrs.
    Excelente resenha e é sempre importante estarmos trazendo esses pontos sempre que encontrarmos. Algumas atitudes não podem mais ser normalizadas.
    Bjss

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    Erika Monteiro
    setembro 08, 2020

    Oie, tudo bem? Interessante ver uma opinião sincera sobre o livro. Acredito que grande parte dos leitores busca isso. O bom do mundo literário é a percepção que cada pessoa tem lendo o mesmo livro. Cada uma tem sua própria visão. Quanto aos pontos levantados por você creio que não me incomodem. Talvez porque já fui ajudada por várias pessoas e nunca me preocupei se era homem ou mulher. Creio que a ajuda é válida de qualquer forma. Fiquei curiosa para conhecer a história mais de perto. Um abraço, Érika =^.^=

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    Ana Souza
    setembro 07, 2020

    Olha, ultimamente os livros estão iguais a receitinha de bolo. Todos iguais. E na maioria são com esse tipo de personagens. Machistas, ou agressivos, ta chato pacas já.
    Gostei bastante de sua resenha. Sinceridade é tudo!
    Beijinhos!

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    Ana Caroline Santos
    setembro 06, 2020

    Olá, tudo bem? Eita quantas problemáticas na leitura. Não sei se seria algo que leria, pois assim como você, ficaria incomodada com muitas colocações. Ainda não li nada da autora, apesar de sempre me recomendarem, mas talvez dessa série passe um pouco longe. Uma pena a leitura não ter sido proveitosa. Ótima e sincera resenha!
    Beijos

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    Ana Paula Lima
    setembro 04, 2020

    Oiii!

    Concordo que não devemos encontrar só personagens descontruidos, mas é um absurdo que algumas atitudes não sejam repensadas, né? Eu fiquei em choque ao ler seus relatos e já sei que não quero passar raiva com essa obra hehhehe, pelo menos foi uma leitura rápida.

    Beijinhos,
    Ani
    http://www.entrechocolatesemusicas.com.br

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    Helana Ohara
    agosto 31, 2020

    Por isso nem li esse livro, comecei ele e nem terminei, o machismo do Jack me incomodou num tanto que não consegui finalizar a leitura.
    E olha que o livro é fluído e gostoso de ler, mas não curti não